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Sonhos interrompidos pela falta de recursos

Sete dias após o Ministério da Educação (MEC) anunciar o bloqueio de 30% no orçamento de todas as instituições federais de ensino do país, a administração central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apresentou um balanço atualizado dos recursos disponíveis para bancar os gastos de 2019. As informações divulgadas na ocasião deixaram perplexa toda a comunidade universitária: com base na nova realidade orçamentária, o funcionamento da UFSC estará em risco a partir do mês de agosto. A execução de políticas de permanência para estudantes provenientes de famílias de baixa renda também está em jogo.

Desde que soube da notícia, o estudante da oitava fase do curso de Direito na UFSC, Wellington Kauê de Mattos, não esconde o receio de ter que desistir mais uma vez da graduação. “O sentimento de tristeza e indignação me definem neste momento”, expressa o estudante.

Natural de Chapecó, Wellington passou por uma experiência frustrante antes de vir para a universidade federal em Florianópolis. Na cidade do oeste catarinense, morava com a mãe que trabalha como diarista e um irmão mais novo de 11 anos de idade. Em 2015, iniciou pela primeira vez uma graduação, também para o curso de Direito, em uma universidade privada, a Unochapecó. Conseguiu um desconto de 50% no valor das mensalidades, mas teve que pedir demissão do seu emprego, pois o curso era no período matutino.

Mesmo com o benefício, Wellington acumulou 4 mil reais em dívidas com mensalidades em um único semestre. “Eu lembro claramente da cena: comecei a chorar porque sabia que minha família não teria condições de pagar a graduação pra mim. Foi uma das piores sensações da minha vida, saber que por não ter dinheiro suficiente eu não conseguiria realizar esse sonho.”

Wellington teve que abandonar o curso, mas não abandonou seus objetivos. Continuou se dedicando aos estudos e, em 2017, conseguiu entrar na UFSC através do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ele ingressou em uma das duas vagas reservadas no curso de Direito para estudantes de famílias de baixa renda e que estudaram em escolas públicas até concluírem o ensino médio.

Wellington depende de benefícios como a bolsa estudantil, isenção no Restaurante Universitário (RU) e da moradia estudantil para permanecer na universidade. A mãe não conseguiria bancar todas as despesas do filho em Florianópolis. “A UFSC abre portas para pessoas que, assim como eu, não conseguiriam pagar toda a graduação”, afirma.

O sentimento de preocupação com o futuro do ensino público do país tomou conta também de Carolina Fronza, estudante da sétima fase do curso de Letras-Português na UFSC. Para ela, a universidade pública é lugar de convívio e integração entre diferentes culturas e deve ser preservada. “Foram muitos anos de mobilização para que chegássemos nesse nível de inclusão e interação social existente hoje. É difícil acreditar que isso está acontecendo.”

Doutorando em Educação na UFSC e professor universitário há mais de 20 anos, Ilson Blogoslawski avalia que o bloqueio anunciado pelo governo federal está em desacordo com metas estabelecidas para o país. “As metas do Planos Nacional da Educação conduzem caminhos para avançar, mas este governo parece ir na contramão. É complicado ter alguém que não é da área educacional à frente do Ministério da Educação, a redução de investimentos com as instituições de ensino representa um atraso para a nação.”

Ilson considera as universidades públicas um espaço para formação cidadã e faz um alerta para as possíveis consequências do bloqueio de verbas. “As universidades públicas preparam as futuras gerações de jovens para vida cidadã, para o trabalho, para a autonomia e responsabilidade de continuar a contribuir com a construção do mundo em que vivemos. A dor maior será das famílias que poderão ver seus filhos e filhas abandonando os estudos por falta de recursos e assistência.”

Atualmente na UFSC, de acordo com dados da Secretaria de Planejamento e Orçamento da instituição de 2018, 29.303 alunos estão matriculado nos cursos de graduação presenciais, 1.488 na modalidade Ensino a Distância (EaD) e 11.354 estudantes na pós-graduação. Ao todo, são oferecidas 5.420 bolsas de auxílio para graduação, atividades de estágio, extensão, iniciação científica, monitoria e estudantil. A pós-graduação tem 1.407 bolsas disponibilizadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

De acordo com o pró-reitor de graduação da UFSC, Alexandre Marino Costa, estamos vivendo um ambiente de indefinições. “As atividades estão sendo ofertadas dentro da normalidade, entendendo a situação e a discussão dos assuntos atuais. Mas existe uma preocupação de que as atividades de educação possam ser prejudicadas com o contingenciamento no próximo semestre”, afirma. Marino revela ainda os esforços da pró-reitoria de graduação da universidade para evitar uma possível evasão estudantil, já que programas de permanência, como bolsas de auxílio para estudantes de baixa renda, podem ser impactados. “Há muitos estudantes que estão em condição de estar em sala de aula em virtude dos programas de permanência. Se não conseguirmos fazer o que está programado, podemos ter um impacto significativo nas atividades de ensino”, explica.

Suspensão de intercâmbios

A UFSC possui mais de 340 convênios bilaterais internacionais com 38 países do mundo. Em 2018, segundo a Secretaria de Relações Internacionais (Sinter), 248 estudantes brasileiros foram beneficiados por esses acordos (Outgoing) e 517 estudantes estrangeiros fizeram intercâmbio na Universidade (Incoming). Com o bloqueio orçamentário do MEC, a UFSC, por meio da Secretaria de Relações Internacionais, teve de suspender algumas mobilidades internacionais por tempo indeterminado.

Os programas que terão atividades interrompidas em 2019 são o Escala Docente, Grado, Posgrado e Gestores y Administradores da Associação de Universidades Grupo Montevideo (AUGM), BRACOL e BRAMEX do Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB). Estudantes que haviam sido selecionados para estudar no exterior a partir do segundo semestre deste ano terão que cancelar seus planos. A determinação também atinge bolsas para os públicos docentes e técnico-administrativos.

Em 2014, a estudante francesa Clara Schnebel foi uma das beneficiadas pelos convênios de intercâmbio entre a UFSC e outras universidades estrangeiras. Ela estudou Jornalismo na UFSC por um ano e teve como experiência acadêmica o aprendizado prático nas áreas de radiojornalismo, telejornalismo e redação. “Na Sorbonne é muita teoria e pouca prática. Como eu queria ser jornalista, eu queria me aperfeiçoar a escrever, gravar e filmar, pois nunca havia feito na Sorbonne”. Clara recebia pelo programa de assistência social Crous Paris auxílio de assistência social para estudar na França e para fazer intercâmbio internacional.

Para ela, a UFSC representou muito mais que aprendizado em Comunicação, fez com que tivesse mais confiança em seus objetivos. “Esse ano foi muito importante na minha vida, pois me ajudou a ter confiança no meu trabalho. Encontrei pessoas, professores e colegas de aula, que me auxiliaram a crescer.” No futuro, depois que terminar o mestrado em Jornalismo, no Institut international de l’image et du son (Instituto Internacional de Imagem e do Som), pretende trabalhar no Brasil.

Ser estudante da UFSC também foi a escolha de Alfredo Calì, de 33 anos. O italiano da Sicília é doutorando em Engenharia Civil (PPGEC) e está desenvolvendo pesquisa sobre gerenciamento de estruturas históricas e avaliação de risco estrutural. “O interesse em vir para a UFSC surgiu a partir da ótima posição da Universidade nas áreas científicas no Brasil, uma das melhores do país”, conta. Alfredo recebia uma bolsa do Elarch, do Programa Erasmus Mundus. A bolsa durou apenas 37 meses e o curso geral da UFSC é de 48 meses, o que dificultou a sua permanência em Florianópolis. Atualmente, mora na Itália e recebe uma bolsa de fomento pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no PPGEC, com duração até setembro, para completar o período de estudos.

“Fiquei muito satisfeito pela experiência, porque além do lado científico, a experiência pessoal me enriqueceu”, reconhece. Quando precisou sanar dúvidas burocráticas de documentação para o visto e em relação ao curso teve suporte das orientadoras e colegas. Agora, está na fase final do seu projeto, elaborando a tese.

Pedro Machado Santos Rohde é beneficiário de uma bolsa de fomento pela Capes. O estudante da sétima fase do curso de Engenharia Eletrônica e outras duas estudantes do curso de Engenharia Elétrica da UFSC fazem intercâmbio na França através do programa Brasil France Ingénieur Technologie (Brafitec), uma iniciativa de cooperação acadêmica na área de Engenharia. “O aluno aqui não precisa desenvolver pesquisa, nem trabalhar em laboratório, só seguir o currículo normal da universidade”, explica.

Pedro foi selecionado no projeto Score, programa de intercâmbio entre os cursos de Engenharia Elétrica da UFPE, UFRN e UFSC do lado brasileiro e o Institut National Polytechnique de Toulouse (ENSE EIHT/INPT) e ENSEE3 da Grenoble — INP, do lado francês, sob a orientação de Patrick Kuo Peng, professor na UFSC.

A seleção acontece através da aprovação de projetos inscritos pelos professores da universidades brasileiras, para estudo de um a dois anos fora do país. Os projetos são financiados com recursos no valor anual de 14,8 milhões de reais para os três primeiros anos de projeto e 712,8 mil reais para o último ano de vigência. Para ser selecionado, o estudante precisa ter boas notas, enviar uma carta de motivação, ter nível de proficiência em francês e passar por uma entrevista.

Cada estudante recebe uma bolsa de 870 euros, seguro saúde e adicional de localidade, mensais, além de auxílio instalação, adicional de localidade e auxílio deslocamento. A bolsa tem duração de um ano e o aluno tem a possibilidade de ficar por mais um ano, se for aprovado. Para os alunos que as universidades de destino possuem acordo de dupla diplomação, a Capes disponibiliza uma bolsa adicional com duração de seis meses. Nos outros quatro meses restantes do semestre, ele pode se manter com o estágio obrigatório, que é remunerado. Pela regra da Capes, ao fim do intercâmbio, o estudante deve cumprir o mesmo período na universidade de origem e pode se formar com dupla diplomação de graduação (França e Brasil).

O aluno selecionado apenas para um ano de bolsa e que pretende ficar mais tempo precisa se manter por conta própria. “Dá pra economizar a bolsa do primeiro ano para isso e existe a possibilidade de fazer um estágio no verão entre o primeiro e segundo ano”, sugere. Na França todos os estágios de mais de oito semanas são por lei remunerados. “Eu e meus colegas vamos fazer um estágio nesse verão. Alguns em laboratórios de universidades, outros em empresas, desde startups até grandes empresas”, afirma.

Pedro acredita que a experiência dará acesso ao mercado de trabalho, tanto no Brasil quanto no exterior. “É uma experiência que as empresas brasileiras e mesmo as estrangeiras valorizam bastante, até porque são poucas as pessoas no Brasil que têm essa oportunidade. Então é algo que possivelmente vai abrir muitas portas para nós, ainda mais num cenário em que o mercado de trabalho brasileiro está cada vez mais concorrido”, espera.

O projeto, no qual o aluno foi contemplado, não foi renovado. O motivo foi a redução no orçamento do número de bolsas no programa, edital de 2018. Apenas 15 vagas estavam disponíveis para submissão de projetos de todo o Brasil. Recentemente, a Capes divulgou a abertura de um novo edital de seleção de projetos, com data de finalização em setembro de 2019 e resultado para final de dezembro.

Mobilidade acadêmica

O programa Andifes de Mobilidade Acadêmica Santander é mais uma oportunidade para estudar em outra instituição de ensino. Ele possibilita ao estudante de graduação ter um vínculo temporário com alguma universidade pública por um período de um a três semestres, com bolsa equivalente a 600,00 reais mensais por cinco meses. São selecionados alunos com excelência curricular e experiência em projetos de extensão, pesquisa científica e voluntariado. Jandir Santos, 25 anos, egresso da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), foi selecionado para estudar Letras — Língua e Literatura Portuguesa, em 2015, na UFSC.

“Escolhi passar uma temporada em uma das grandes federais do Sul do país para contrastar com minha vivência nortista, desenvolvendo projetos didáticos que levassem em conta as duas realidades”, lembra.

Para ele a oportunidade de estudar em duas instituições públicas de ensino superior trouxe desenvolvimento pessoal, autonomia e conhecimentos, que somente o contato com vivências diferentes pode propiciar. “Foi por meio da experiência universitária que eu, filho de motorista do transporte coletivo e de uma trabalhadora “Para a nação, reduzir investimentos com as instituições de ensino representa um atraso” autônoma, me descobri pesquisador, me descobri professor, e ousei me aventurar no mundo da produção acadêmica e literária”, afirma.

Hoje, Jandir é mestrando de Letras na UFAM. Para ele presenciar o desmonte do ensino superior é algo doloroso e representa um retrocesso ao reconhecimento das universidades — e da Educação, consequentemente — como um agente de transformação social. “Permitir o avanço desse projeto é tirar das pessoas que não gozam de recursos financeiros uma oportunidade singular de ter experiências parecidas”, conclui.

Reconhecimento nacional

A UFSC é a sexta melhor do país de acordo com o Ranking Universitário Folha (RUF) 2018, avaliação anual realizada pelo jornal Folha de S.Paulo. Como está entre as 10 melhores do país é uma das mais procuradas, somente no vestibular de 2018, recebeu 31,3 mil inscritos. Este ano, mais um vestibular está sendo preparado e Glória Maria da Silva de Jesus, 17 anos, é uma das pessoas que vai realizar a prova em dezembro.

A estudante natural de Fortaleza sempre sonhou entrar em uma faculdade, desde os seis anos de idade. Em 2020, pretende iniciar Jornalismo na UFSC. “Durante o Ensino Médio, eu estava estudando para fazer Medicina, para ajudar as pessoas. Quando não passei no vestibular entrei em uma crise, porque não sabia se era exatamente aquilo que queria. Então descobri o jornalismo e me encontrei e sei que é possível ajudar pessoas também”.

A estudante é filha única e mora em Florianópolis, onde faz cursinho pré-vestibular. Está inscrita no vestibular da UFSC e também no Enem e tem se preparado para os exames estudando todos os dias de manhã e pela tarde em casa ou na biblioteca pública da cidade. “Como eu vim de outra cidade, o vestibular da universidade é diferente, as vezes me sinto meio para trás, mas estou me dedicando ao máximo”. Para ela, estudar em uma universidade pública e de qualidade é uma oportunidade única na vida, já que além do conhecimento teórico a pessoa também tem um desenvolvimento como humano, “pelo pouco que conheço e pelo motivo que escolhi estudar lá é porque ela é uma das melhores para estudar, melhores professores, um melhor desenvolvimento até das próprias pessoas”.

Como futura estudante da universidade ela defende que o ensino deve ser gratuito e para todos. “Nós temos que lutar pela Educação, com ela podemos fazer grandes mudanças não só no país, mas também no mundo. Porque conhecimento é poder!”


Texto publicado no Jornal Zero UFSC: https://medium.com/@zeroufsc/sonhos-interrompidos-pela-falta-de-recursos-b2b3f230299c

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